Saúde

Sociedades médicas atualizam diretrizes sobre tratamento de alterações na tireoide durante a gravidez

Novas recomendações suspendem uso preventivo de hormônio sintético em gestantes com anticorpos positivos e tireoide saudável, além de ajustar critérios para hipotireoidismo subclínico.

Por Redação •
Sociedades médicas atualizam diretrizes sobre tratamento de alterações na tireoide durante a gravidez

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) divulgaram novas orientações para o diagnóstico, tratamento e monitoramento de alterações na tireoide durante a gestação. A atualização foi apresentada no Rio de Janeiro durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia.

De acordo com o novo posicionamento, mulheres grávidas que apresentam anticorpos contra a tireoide positivos (anti-TPO), mas mantêm a glândula funcionando regularmente com níveis normais de T4 livre, não devem mais ser submetidas ao uso preventivo de levotiroxina. Três amplos estudos recentes comprovaram que a terapia preventiva não reduz os riscos de aborto ou parto prematuro nesses casos.

Mesmo sem o uso do fármaco hormonal, a atividade tireoidiana dessas gestantes continuará sendo acompanhada, uma vez que pesquisas apontam maior probabilidade de desenvolvimento de hipotireoidismo durante a gravidez. Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM, explicou que o anticorpo positivo aponta apenas uma predisposição: “Se os [hormônios] TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”.

Para mulheres previamente diagnosticadas com hipotireoidismo antes de conceber, a orientação permanece inalterada: a dose rotineira do hormônio deve ser aumentada em cerca de 30% assim que a gestação for confirmada.

O Brasil optou por manter o rastreamento precoce de todas as grávidas desde o início da gestação, divergindo da diretriz internacional da Associação Americana da Tireoide (ATA), que propôs a triagem seletiva por fatores de risco. Cleo Mesa Júnior ressaltou que “o rastreamento seletivo pode deixar de identificar algumas mulheres que apresentam alteração da tireoide, mas não possuem os fatores de risco considerados na triagem”. O especialista acrescentou que, em casos onde não for viável examinar todas as gestantes, critérios antigos como idade materna, obesidade e número de gestações anteriores deixam de ser considerados fatores de risco isolados por sua alta frequência populacional e baixo poder seletivo.

Outra mudança estabelecida diz respeito ao hipotireoidismo subclínico, caracterizado por TSH elevado e T4 livre normal. O início do tratamento para índices de TSH entre 4,0 e 10 mUI/L agora fica concentrado no primeiro trimestre da gravidez, período em que o feto tem maior dependência do hormônio materno até a 12ª semana. Caso a alteração seja detectada no segundo ou terceiro trimestre, a recomendação é apenas monitorar a função da glândula sem introduzir a levotiroxina, a menos que o TSH ultrapasse 10 mUI/L.

Diferentemente da orientação estrangeira de repetir a dosagem de TSH após uma a três semanas antes de iniciar o tratamento, a diretriz nacional orienta não aguardar esse intervalo para a tomada de decisão terapêutica. “[No Brasil], em um sistema em que nem sempre é possível garantir retorno rápido, esperar pode significar perder a janela de oportunidade para o tratamento”, defendeu Cleo Mesa Júnior.

Em relação ao iodo, nutriente indispensável para a produção hormonal que tem demanda elevada na gestação e lactação, o Brasil não orienta a suplementação universal. O reforço deve ser individualizado para situações de risco de carência nutricional: “[Em gestantes] com dietas muito restritivas, veganas, baixo consumo ou ausência de sal iodado ou situações de má absorção, pode-se considerar suplementação de 100 a 150 µg de iodo por dia”.

Fonte: AgênciaBrasil